quinta-feira, 15 de abril de 2010

Querida e Eterna Infância

Infância,quando era pequenina eu queria ser gente grande, para não ter que dormir cedo,poder jogar baralho até altas horas e poder escolher o horário para tomar banho.
Ficava ao lado dos adultos, nos jogos de tranca, observando as cartas que jogariam, e com uma enorme vontade de jogar, mas era jogo para gente grande.
O que mais me recordo é do Interior, "que sítio maravilhoso",era muito bom andar descalço pelo solo coberto de terra fofa, e subir em árvores para visualizar  o céu mais de perto e observar o vizinho, uma  família de japonêses, uma das minhas amizades de criança, que agora já não tenho contato com eles.
Acordava tarde como de costume e já ia caminhar pelo sítio á procura de frutíferas, algo que até eu adoro, saborear frutas, principalmente manga  lichia e melancia.
No final de Semana a menina gostava de ir ao parque.Os preferidos eram:


O Parque do Gugu, Parque da Mônica e o pequeno parquinho, obra da prefeitura instaurada em Indaiatuba , onde a pequenina passava suas férias escolares.

Uma menina doce e apaixonada pela natureza transformou-se em uma mulher de sonhos e aventuras.

Quando precisava de um tempo sozinha, ela decidia ir para o Interior á busca do contato com a natureza, se sentia em harmonia com sua criança interior.

Seu jeito de mulher com coração de menina dificulta seus contatos sociais, e seus relacionamentos amorosos.Simplesmente uma menina que quer mas não sabe crescer.
Ela tem certeza que irá transformar o seu mundo de fantasias e atos não pensados em realizadade.Não mudará para se adaptar, se vestirá com uma capa de proteção para não ferir a realidade interior.
Afinal, na vida todos os momentos são válidos sejam eles bons ou ruins....

Os filhos do lixo

"Gravei a tristeza, a resignação, a imagem das crianças minúsculas

e seminuas, contentes comendo lixo. Sentadas sobre o lixo.

Uma cuidando do irmãozinho menor, que escalava a montanha

de lixo. Criadas, como suas mães, acreditando que Deus queria isso"



Há quem diga que dou esperança; há quem proteste que sou pessimista. Eu digo que os maiores otimistas são aqueles que, apesar do que vivem ou observam, continuam apostando na vida, trabalhando, cultivando afetos e tendo projetos. Às vezes, porém, escrevo com dor. Como hoje.

Acabo de assistir a uma reportagem sobre crianças do Brasil que vivem do lixo. Digamos que são o lixo deste país, e nós permitimos ou criamos isso. Eu mesma já vi com estes olhos gente morando junto de lixões, e crianças disputando com urubus pedaços de comida estragada para matar a fome.

A reportagem era uma história de terror – mas verdadeira, nossa, deste país. Uma jovem de menos de 20 anos trazia numa carretinha feita de madeiras velhas seus três filhos, de 4, 2 e 1 ano. Chegavam ao lixão, e a maiorzinha, já treinada, saía a catar coisas úteis, sobretudo comida. Logo estavam os três comendo, e a mãe, indagada, explicou com simplicidade: "A gente tem de sobreviver, né?".



O relato dessa quase adolescente e o de outras eram parecidos: todas com filhos pequenos, duas novamente grávidas e, como diziam, vivendo a sua sina – como sua mãe, e sua avó, antes delas. Uma chorou, dizendo que tinha estudado até a 8ª série, mas então precisou ajudar em casa e foi catar lixo, como outras mulheres da família. "Minha sina", repetiu, e olhou a filha que amamentava. "E essa aí?", perguntou a jornalista. "Essa aí, bom, depende, tomara que não, mas Deus é quem sabe. Se Ele quiser..."

Os diálogos foram mais ou menos assim; repito de memória, não gravei. Mas gravei a tristeza, a resignação, a imagem das crianças minúsculas e seminuas, contentes comendo lixo. Sentadas sobre o lixo. Uma cuidando do irmãozinho menor, que escalava a montanha de lixo. Criadas, como suas mães, acreditando que Deus queria isso.

Não sei como é possível alguém dizer que este país vai bem enquanto esses fatos, e outros semelhantes, acontecem. Pois, sendo na nossa pátria, não importa em que recanto for, tudo nos diz respeito, como nos dizem respeito a malandragem e a roubalheira, a mentira e a impunidade e o falso ufanismo. Ouvimos a toda hora que nunca o país esteve tão bem. Até que em algumas coisas, talvez muitas, melhoramos. Temos vacinas. Existem hospitais e ensino públicos – ainda que atrasados e ruins. Temos alguns benefícios, como aposentadoria – embora miserável –, e estabilidade econômica aparente. Andamos um pouco mais bem equipados do que 100 anos atrás.

Mas quem somos, afinal? Que país somos, que gente nos tornamos, se vemos tudo isso e continuamos comendo, bebendo, trabalhando e estudando como se nem fosse conosco? Deve ser o nosso jeito de sobreviver – não comendo lixo concreto, mas engolindo esse lixo moral e fingindo que está tudo bem. Pois, se nos convencermos de que isso acontece no nosso meio, no nosso país, talvez na nossa cidade, e nos sentirmos parte disso, responsáveis por isso, o que se poderia fazer?

Pelo menos, reclamar. Achar que nem tudo está maravilhoso. Procurar eleger pessoas de bem, interessadas, que cuidassem dos lixões, dos pobrezinhos, da saúde pública, dos leitos que faltam aos milhares, dos colégios desprovidos, de tudo isso que cansativa mas incansavelmente tantos de nós têm dito e escrito. Que pelo menos a gente saiba e, em vez de disfarçar, espalhe. Não para criar hostilidade e desordem, mas para mudar um pouquinho essa mentalidade. Nunca mais crianças brasileiras sendo filhas do lixo, nem mães dizendo que aquela é a sua sina, porque Deus quer assim.

Deus não quer assim. Os deuses não inventaram a indiferença, a crueldade, o mal causado pelo homem. Nem mandaram desviar o olhar para não ver o menino metendo avidamente na boca restos de um bolo mofado, talvez sua única refeição do dia. E, naquele instante, a câmera captou sua irmãzinha num grande sorriso inocente atrás de um par de óculos cor-de-rosa que acabara de encontrar: e assim se iluminou por um breve instante aquela imensa, trágica realidade.



Lya Luft  - Veja 14 de abril de 2010